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O "espetáculo da mediocridade" no primeiro governo Dilma

Tem idiota pela praça que acha uma inflação de 7% a.a. algo tolerável, mas eles se esquecem que nesse ritmo, o nível de preços na economia dobra a cada dez anos

No Brasil Post, Por Alexandre Andrada 
Professor da UnB e Doutor em Economia pela USP.


Desde 2001 o Banco Central do Brasil realiza uma pesquisa com algumas dezenas de empresas do setor financeiro com o objetivo de acompanhar as expectativas dos agentes econômicos sobre algumas das principais variáveis da economia. Usualmente toda as segunda-feiras o BC disponibiliza uma versão enxuta dessa pesquisa, sob o título de Focus - Relatório de Mercado.

O último relatório Focus, divulgado na quarta-feira de cinzas, é um triste retrato do futuro próximo da economia brasileira, que lembra muito nosso passado.

Espera-se agora uma inflação medida pelo IPCA de 7,27% para este ano. Valor acima da antiga meta de 4,5% jogada no lixo pela desastrosa gestão de Alexandre Tombini à frente do BACEN, e acima da meta implícita de 6,5% adotada a partir do início do primeiro governo Dilma. Tem idiota pela praça que acha uma inflação de 7% a.a. algo tolerável, mas eles se esquecem que nesse ritmo, o nível de preços na economia dobra a cada dez anos. Notem que o Real foi introduzido em 1994 e já não circulam mais moedas de um centavo, nem notas de um real. Esse é apenas um exemplo pitoresco de como a inflação ainda é elevada no Brasil.

O mercado projeta novas elevações na taxa Selic, que deve fechar o ano em 12,75% a.a. E pensar que a taxa chegou a um mínimo de 7,25% em março de 2013. A valer a propaganda da campanha, Dilma tirou comida do prato de muita criancinha por aí.

Já a variação do PIB esperada para esse ano é de -0,42%. O que significa uma queda no produto e na renda per capita do Brasil. E isso é o pior de tudo.

O crescimento econômico tem sido um problema do Brasil desde os anos 1980. Se entre 1930 e 1980 nós fomos um dos países que mais cresceram em todo o mundo, de lá pra cá estamos não só estacionados, como empobrecendo em termos relativos.


A tabela abaixo mostra a variação média do PIB real em alguns períodos selecionados da história brasileira. Entre 1945 e 1964 o PIB brasileiro cresceu a uma taxa média de 6,9% a.a. Entre 1965 e 1980 essa taxa foi de 8,11% a.a. Já entre 1981 e 1994 essa taxa caiu drasticamente, para 1,91% a.a. Na era PT, entre 2003 e 2013, essa taxa se eleva para 3,52%.



O gráfico abaixo mostra a evolução do PIB per capita brasileiro em termos de dólares americanos. Durante os anos 1970, época do milagre econômico e do II PND, a variável crescia a uma taxa vigorosa. Isso pára em 1980, com o segundo choque do petróleo, o choque de juros americanos, e a crise mexicana, a economia brasileira entra em colapso. Os anos 1980 foram terríveis, mostra disso é que Sarney foi presidente. E em 1989 elegemos Collor. Tragédia pouca é bobagem.

A chamada "década perdida" na verdade vai de 1980 até 1994, pois é apenas neste último ano que nossa renda per capita ultrapassa o patamar registrado em 1980. Ou seja, o Brasil ficou quase 14 anos estacionado, vendo a banda passar. Para se ter uma idéia do tamanho da catástrofe, até meados dos anos 1980 a renda per capita do Brasil era maior que a da Coréia do Sul. Sim, você leu bem, da Coréia do SUL! A Coréia era tão pobre, que mandava gente pro Brasil em busca de uma vida melhor. Basta uma caminhada pelo bairro do Bom Retiro em São Paulo para ver vestígios desses tempos. Hoje, o coreano que vem para o Brasil ou é castigo ou é doido. Eles ficaram ricos sob qualquer definição do termo. E nós continuamos no "subdesenvolvimento", no "terceiro-mundismo".

O gráfico abaixo mostra a renda per capita de Japão, Coreia do Sul, Brasil e China como porcentagem da renda per capita dos Estados Unidos. Note como o processo de convergência da economia brasileira retrocede a partir dos anos 1980.


Durante o governo FHC o desempenho da economia brasileira foi medíocre. Saindo de um PIB per capita de US$ 8,42 mil, para US$ 8,81 mil. Sim, a inflação despencou, mas a carga tributária, as taxas de juros, o endividamento externo, entre outras coisas, só fez crescer. Para baixar a bola dos tucanos, lembre-se que se Dilma fantasia um superávit primário, durante o primeiro governo FHC o governo trabalhava com déficits sem medo de ser feliz. E viveu na irresponsabilidade até janeiro de 1999.



Durante o governo petista o PIB per capita retomou uma trajetória de forte alta, algo não visto desde os anos 1970. Por isso estávamos todos esperançosos, como não lembrar da capa da The Economist com o Cristo Redentor decolando portentoso? E não só isso, caíram os juros, a inflação, a pobreza, a miséria, a desigualdade, o endividamento externo, etc. Embalado pelo crescimento da China e surfando no aumento do preços da commodities, a economia brasileira melhorou significativamente.

Foi por essa época que Lula evocou o "espetáculo do crescimento". Mas enquanto no período Lula o PIB do Brasil cresceu em média 4,06% ao ano, no primeiro mandato de Dilma, a se confirmar a retração de -0,15% do PIB, a média despenca para 1,53%, menor que a registada durante a década perdida. É certo que estamos longe de viver novamente o inferno dos anos 1980, mas esse dado mostra parte do desastre ocorrido durante o primeiro mandato de Dilma. Desastre que irá nos perseguir por mais alguns anos


Por isso não creio que o segundo mandato será muito melhor em termos de crescimento. Então, melhor se conformar com nossa condição de país de terceiro mundo, subdesenvolvido, ou qualquer que seja o nome da vez.
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